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14 de Dezembro de 2018
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    ‘Se morrer não me aflige, sentir dor constante me gera pânico’, diz homem que fez testamento vital

    Areal Pires Advogados Associados, Advogado
    há 11 meses

    Gleison Chaves da Silva tem Esclerose Lateral Amiotrófica e se comunica com os olhos

    SÃO PAULO – O testamento vital, documento em que a pessoa detalha a quais procedimentos aceita ou não ser submetida caso esteja inscosciente, deve virar tema de projeto de lei em breve, informou esta semana ao GLOBO a Federação dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (Feohesp).

    A organização divulgou na última segunda-feira uma pesquisa segundo a qual 96,4% das pessoas defendem que a vontade de um paciente em estado terminal, manifestada em testamento, prevaleça sobre a opinião de familiares e médicos.

    O técnico em eletrônica Gleison Chaves da Silva, de 50 anos, foi diagnosticado com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) e resolveu fazer um testamento vital. A pedido do GLOBO, ele dá seu depoimento sobre o tema:

    “Recebi o diagnóstico de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) em 2010. Fui aposentado no ano seguinte, quando também comecei a me alimentar por sonda gástrica e a usar Ventilação Não Invasiva. Atualmente, dependo da ventilação respiratória 24 horas e tenho o corpo completamente paralisado, com exceção de alguns músculos da face. Minha fala está comprometida, contudo, com o auxílio das pessoas que compreendem o que digo, me expresso verbalmente. Também me comunico utilizando um sistema que reconhece o movimento dos olhos.

    Adoro viver! Apesar da brutal incapacidade física que a doença me impôs, ela não foi capaz de tirar minha alegria, meu desejo de interagir com a família e amigos, de acompanhar o desenvolvimento do meu casal de filhos, de ainda fazer-me útil. Continuo tendo vida social. Menos intensa, evidentemente, mas vou ao cinema, ao teatro, ao estádio para assistir o Galão da Massa. Até de corrida de rua já participei!

    Foi neste contexto que fiz o testamento vital e descobri meu direito de recusar tratamentos inócuos que visam tão somente o prolongamento da vida. E a cada dia que passa percebo que minha escolha está acertada. A morte não me aflige. Na realidade ela me dá uma sacudida, me faz rever crenças e valores, a enxergar o essencial, a não valorar coisas insignificantes. Ela me sinaliza que, enquanto não bater à porta, ainda tenho tempo de me tornar uma pessoa melhor.

    Talvez o medo, o apego, a dor, as questões religiosas sejam prováveis motivos impeditivos de discutirmos o que efetivamente é a única certeza que temos ao longo da vida: a nossa finitude.

    Se por um lado morrer não me aflige, a possibilidade de sentir dor constante, de agonizar por falta de ar, de ser internado e sair do hospital com escaras e, por fim, deixar de ser cuidado pelas pessoas que promovem o meu bem-estar me geram pânico e medo. Imagino que, num futuro não muito distante, pessoas saudáveis farão o testamento vital no afã de evitarem ficar “vivendo” presas a máquinas. Afinal, apesar dos constantes avanços da medicina, o risco de sofrer um acidente com sequelas graves ou receber o diagnóstico de uma doença incurável é real para todos”.

    Fonte: Jornal O Globo

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